Mostra de Tecnologias Sustentáveis ganha segunda edição
Por Rachel Abreu (Envolverde), especialmente para o Instituto Ethos
Edição: Benjamin S. Gonçalves
Cidades, negócios rurais, preservação e manejo sustentável de biomas são os principais eixos temáticos da Mostra de Tecnologias Sustentáveis 2009, organizada pelo Instituto Ethos, que acontecerá simultaneamente à Conferência Internacional do Ethos, entre 15 e 18 de junho de 2009, em São Paulo.
Nesta entrevista, Clayton Campanhola, 53, diretor da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e um dos curadores da mostra, discorre sobre a importância da realização do evento, os temas centrais, os critérios utilizados na seleção das tecnologias e produtos sustentáveis, a dinâmica da mostra, o mercado de desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, a expectativa dos mercados consumidores, a absorção e aplicação dessas tecnologias pelas empresas e as perspectivas para o setor.
Instituto Ethos: Como o Conselho Curador enfrenta o desafio de realizar a Mostra de Tecnologias Sustentáveis 2009? Quais são os objetivos e as expectativas para esta edição?
Clayton Campanhola: Precisamos mostrar que é possível ter tecnologias sustentáveis no sentido mais amplo do termo, envolvendo não só questões de meio ambiente, mas também questões sociais, olhando para elas com um pouco mais de cuidado e profundidade, para que possam permear o setor produtivo de maneira geral. Queremos também provar que é possível haver uma integração entre a academia e as empresas que venha atender uma demanda importante para que o setor empresarial se prepare para o futuro. Esse futuro está muito próximo e a sustentabilidade começa a fazer parte do processo. Acho muito positivo sair na frente e mostrar que há coisas corretas sendo realizadas.
IE: Quais são os temas prioritários para a próxima edição?
CC: Selecionamos três grandes setores para a Mostra 2009: cidades, negócios rurais e preservação e manejo sustentável de biomas. São bem amplos, mas não podemos deixar nenhum deles de lado. O assunto foi bastante discutido pelo Conselho Curador e julgamos importante que sejam mantidos esses três grandes pilares.
IE: Que critérios foram utilizados pela curadoria na identificação de tecnologias sustentáveis?
CC: Nós definimos algumas variáveis críticas, como energia, gases do efeito estufa, produção de materiais, resíduos, água, biodiversidade, eqüidade, biodiversidade, trabalho decente, inclusão social, integridade e combate à corrupção. Então as tecnologias apresentadas devem abordar uma ou mais dessas variáveis, isolada ou integradamente. E esse é o primeiro critério para seleção. O segundo critério, muito importante, é que as tecnologias, os processos, serviços, o que for apresentado deve ser reaplicável, ou seja, ter capacidade de ser reproduzido. O terceiro item de seleção é que as tecnologias concorrentes devem apresentar evidências e melhorias comprovadas. O quarto critério é que os projetos devem contribuir para a sustentabilidade de forma escalar, mostrando que, se usados e ampliados regionalmente, em diferentes situações e locais, obviamente aumentarão a perspectiva de contribuição daquele produto ou daquela tecnologia a serviço da sustentabilidade.
Outro ponto é verificar se a tecnologia é sustentável nos seus processos de desenvolvimento e na sua aplicação. Muitas vezes, durante o desenvolvimento de um produto, observa-se sustentabilidade, mas, ao aplicá-lo em larga escala, pode haver problemas. Não adianta ter o produto na prateleira. Ele tem de provar sua capacidade de aplicação ampla e prática.
Por fim, serão priorizados aqueles processos ou tecnologias que compatibilizem o interesse privado com o interesse público. No caso de duas tecnologias muito semelhantes, ficará aquela que atender melhor o interesse público, entendido como interesse social.
IE: Que balanço o Conselho Curador fez da Mostra 2008?
CC: Foi um vôo que agora estamos aperfeiçoando. Queremos enriquecer o material que vai ser exposto para mostrar efetivamente a tecnologia. E as pessoas que a criaram e desenvolveram estarão presentes para esclarecer dúvidas, detalhes, dialogar. Esta foi uma das demandas do público que visitou a primeira mostra.
IE: Na primeira edição, 56 iniciativas foram selecionadas entre 105 inscritas. Há expectativa de superar esse número?
CC: Em razão da primeira mostra, temos um pouco mais de experiência para contatar e motivar as instituições a apresentar suas iniciativas. As tecnologias expostas foram diversificadas, o que é bom. Então esperamos ampliar isso. Não é uma idéia apenas. Há tecnologias de fato, e não apenas desenvolvidas, coisas concretas, recém-disponibilizadas, que já podem ser utilizadas.
IE: O empreendedor dessas tecnologias apresenta um perfil determinado?
CC: Sim. É quem tem maior sensibilidade para essas questões, que são, de certa forma, mais complexas. É necessário trabalhar com um número maior de variáveis, olhar os aspectos econômicos, sociais e ambientais. Há várias ONGs, universidades e empresas fazendo isso, das mais diferentes regiões do país.
IE: Os avanços em tecnologias sustentáveis pelas empresas e parceiros ainda são vistos apenas como risco e custo ou como oportunidade e investimento para crescimento futuro?
CC: Ainda existe muita coisa a ser feita. Na Europa, por exemplo, onde a questão da sustentabilidade é muito forte, a sociedade cobra muito e as empresas têm de se adaptar, embora isso muitas vezes represente custo adicional aos seus produtos. No Brasil, ainda estamos rompendo as barreiras, criando uma cultura de preocupação com o meio ambiente. Mas, de maneira geral, esse assunto está na pauta. Olhando os últimos 15 anos, observa-se que todos percebem a necessidade de se trabalhar a sustentabilidade. Agora, internalizar na estratégia de uma empresa é outra história. No entanto, há empresários que já assumiram esse compromisso.
IE: Como a crise financeira mundial pode afetar os investimentos em tecnologia sustentável? Para o senhor, é um momento de risco ou de avanço dessas tecnologias?
CC: Esta crise mundial é muito séria, mas tem o epicentro nos países desenvolvidos. O Brasil, de certa maneira, tem reagido muito bem à crise e o próprio governo tem condições hoje de ajudar os setores que estão sofrendo. Nossa expectativa é de que essa atual restrição ao crédito, não dure mais do que alguns meses. No médio prazo, porém, a questão da sustentabilidade é fundamental. Hoje todo mundo está esperando um pouco para ver o que vai acontecer. No entanto, investir em tecnologia sustentável e inovação é imprescindível. Deve haver um arrefecimento agora, mas é algo momentâneo.
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