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Conferência Nacional 2003
Empresas e Responsabilidade Social
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Ética e sustentabilidade serão
pontos centrais da
palestra de Leonardo Boff
Um dos formuladores da Teologia da Libertação,
o professor e teólogo Leonardo Boff é autor de mais
de 60 livros. Depois de atuar como frei franciscano por 34 anos,
renunciou a suas atividades de padre em 1993. Passou então
a se dedicar a estudos nas áreas de Teologia, Espiritualidade,
Filosofia, Antropologia e Mística.
Atualmente é professor emérito de ética e
de ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)
e membro da Comissão da Terra. É professor Honoris
Causa pelas universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia).
Foi professor visitante em Salamanca, Lisboa, Harvard, Basel e
Heidelberg. No dia 12 de junho de 2003, Leonardo Boff participará
da Quinta Conferência Nacional do Instituto Ethos com a
palestra Reflexões sobre a ética e a formação
de valores na sociedade. A seguir, conheça algumas de suas
idéias.
Em seus trabalhos, o conceito de desenvolvimento sustentável
como saída viável para as necessidades de todos
é posto em xeque. Por quê?
Leonardo Boff - Esse conceito está presente em todos
os documentos oficiais dos organismos internacionais, nacionais
e nos projetos das empresas. Entretanto, devemos ter cautela no
seu uso, pois se não discutirmos previamente o tipo de
desenvolvimento que temos em mente, poderemos cair numa falácia
e não realizar o que quer esse conceito. Se tomarmos como
referência o desenvolvimento capitalista, devemos saber
que ele, fundamentalmente, destrói a sustentabilidade.
Esse tipo de desenvolvimento é linear, cumulativo, e não
tolera limites porque é regido pela concorrência,
não pela cooperação. Em razão disso,
ele cria continuamente desigualdades sociais e, em geral, depreda
a natureza ou coloca sob estresse os recursos escassos.
O que queremos é a sustentabilidade, categoria que vem
da biologia, da ecologia e das ciências da Terra. Por seu
intermédio, se quer enfatizar o fato de que todos os seres
são interdependentes, cooperativos e co-evoluem de forma
a criar um equilíbrio dinâmico na realidade. O desenvolvimento
capitalista, hoje hegemônico, como se constata em nível
mundial, cria cada vez mais exclusões e, ano a ano, só
faz piorar os índices de sustentabilidade da vida, dos
ecossistemas e do Planeta.
Qual o papel da Responsabilidade Social Empresarial na construção
desse novo modelo de sociedade?
Leonardo Boff - Precisamos de alternativas globais no processo
de produção, caso contrário, poderemos ir
de encontro ao pior. A responsabilidade social e ecológica
das empresas visa atenuar os efeitos negativos sobre a natureza
e a sociedade em relação ao tipo de desenvolvimento
dominante. Em ambientes restritos (micro) podemos ter um desenvolvimento
sustentável válido. Nesses casos, o uso racional
dos recursos atende às necessidades humanas, permite a
reposição ou a regeneração desses
recursos e alimenta a solidariedade entre gerações
para garantir às gerações futuras que também
satisfaçam suas necessidades.
Como o senhor encara a mobilização da sociedade
em favor de ações sociais no Brasil?
Leonardo Boff - O Brasil tem uma herança de exclusão
e de perversidade social de vários séculos. Um governo
sozinho não tem condições de encontrar solução
para tão grande flagelo. Se a sociedade não assumir
sua parte (já que ela, pela forma como se organizou, é
cúmplice dessa situação) não haverá
nunca um Brasil onde todos possam existir, a natureza incluída.
Temos centenas de movimentos sociais populares que lutam por um
outro tipo de País. O encontro entre governo, com políticas
públicas prioritárias e consistentes, e os movimentos
sociais pode representar a grande revolução nacional
necessária, possível e sem violência.
A competição entre as empresas no País
é um entrave para a ética empresarial?
Leonardo Boff - A competição é a
mola mestra do sistema de produção do capital, hoje
internacionalizado. Na competição, o mais forte
ganha e, se puder, engole os mais fracos. A competição,
quando não regularizada através de leis, é
concentradora e cria tensões sociais como marginalização
e exclusão. Por isso, numa sociedade civilizada, deve predominar
a cooperação de todos com todos, mediada pelo Estado.
Deve valer a lei de John Nash de "ganha-ganha" ao invés
de "ganha-perde".
A competição existe e deve ser pelo melhor. Ademais,
a cooperação é a suprema lei do universo,
lei que revela as interdependências de todos com todos,
lei que permitiu aos seres humanos dar o salto da animalidade
(cada um comia para si) para a condição de humanidade
(repartiam os alimentos), criando assim a linguagem e a sociabilidade.
Essa lei deve reger mais e mais a produção para
o uso humano num planeta com recursos escassos, alguns não
renováveis, e com uma população mundial sempre
crescente.
Se não cooperarmos, dentro de 30, 40 anos não haverá
o suficiente para a maioria dos humanos e para os demais seres
da comunidade de vida (plantas, animais, microorganismos). As
empresas precisam participar da assimilação dessa
consciência de nossos limites, da necessidade da autolimitação
e da busca da justa medida.
A responsabilidade das corporações com o meio
ambiente e a sociedade podem ser um diferencial de mercado?
Leonardo Boff - Hoje, as empresas que menos poluem e menos
sacrificam a natureza e mais integram os funcionários nos
processos produtivos ganham o respeito dos consumidores e acabam
tendo sucesso econômico. As várias qualificações
que se dão hoje, através de organismos especializados,
às empresas que incorporam a preocupação
ecológica, fazem com que elas ganhem clientes e cresçam.
Como implantar conceitos éticos nas empresas e estabelecer
programas de ética profissional?
Leonardo Boff - A discussão ética perpassa
todas as ações humanas, pois sempre podemos perguntar:
essas ações são boas para a vida da natureza,
para a vida humana, para a convivência entre os cidadãos,
para a relação cooperativa entre o capital e o trabalho?
Ou são ações que prejudicam, criam privilégios,
geram marginalizações e exclusões? Responder
a tais questões é incorporar critérios éticos.
Cumprir-se-á melhor essa tarefa se a discussão envolver
a todos na empresa, se houver cursos e encontros para melhorar
a consciência ética e encontrar o caminho do meio
onde todos possam se sentir incluídos.
As recentes mobilizações internacionais da sociedade,
como aquelas contra a guerra, por exemplo, podem ser um fator
de pressão em favor de uma postura mais ética das
grandes corporações internacionais?
Leonardo Boff - Está surgindo no mundo a cidadania
planetária, assentada sobre a sociedade civil mundial.
Ela ganhou expressão visível no Fórum Social
Mundial de Porto Alegre, onde se encontraram representantes do
mundo inteiro clamando e agindo para mostrar que um outro mundo
é possível. É muito clara a consciência
de que não temos muito tempo para as mudanças: a
crise social mundial só faz crescer a exclusão.
A fome, as doenças dos pobres e a crise ecológica,
que dá conta da crescente degradação da qualidade
da Terra e dos ecossistemas, pedem mudanças consistentes
na forma de produção e distribuição
dos bens necessários à vida e no padrão de
relacionamento com a Terra. Muitos analistas nada apocalípticos
advertem: ou mudamos de rumo ou vamos encontraremos a escuridão.
A guerra contra o Iraque, preventiva, mostra os riscos que corre
a humanidade. Essa guerra ilegítima (sem apoio dos organismos
mundiais) só pode ser feita contra países fracos.
Não pode ser feita contra a Rússia ou a China, países
detentores de armas de destruição em massa.
Seria o fim da biosfera e do projeto planetário humano.
Então, devemos criar uma aliança em favor da vida
para evitar a insensatez de dirigentes como o presidente Bush,
que podem pôr em risco o futuro da espécie humana.
Precisamos urgentemente de ética, vale dizer, a sabedoria
de agir bem e de forma não destrutiva. Precisamos, além
da ética, de uma visão espiritual da vida, que nos
devolva reverência face ao mistério da existência
e do mundo e devoção face à fonte originária
de todo o ser, Deus.
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